quarta-feira, 17 de junho de 2009

``Sadomasoquismo Intelectual é o Fascismo dos Anos 1980 - A Vanguarda Come Merda e Gosta''


Delinquentes!


Recentemente uma certa confusão sobre ``Caos'', levantada por certos setores revanchistas, importunou a AAO, forçando-nos (a nós, que desprezamos polêmicas) a enfim participar de uma Sessão Plenária devotada para denúncias ex cathedra, nefastas como o inferno; nossas faces de retórica, perdigotos voando de nossos lábios, as veias do pescoço inchadas com o fervor do púlpito. Devemos, por fim, nos resumir com cartazes com slogans raivosos (em caracteres de 1930) declarando o que a Anarquia Ontológica não é. Lembrem-se de que só na física clássica o Caos tem qualquer coisa a ver com entropia, morte térmica e decadência. Em nossa física (Teoria do Caos), o Caos identifica-se com o Tao, mais além tanto do yin-como-entropia quanto do yang-como-energia, sendo mais um princípio de criação do que qualquer nihil, um vazio no sentido de potentia, não exaustão. (Caos como ``a soma de todas as ordens''.) Dessa alquimia, quintessencializamos uma teoria estética. A arte do Caos pode ser aterrorizante, pode até atuar num grand guignol, mas jamais pode deixar-se encharcar em negatividade pútrida, tanatologia, schadenfreude (deleite com o sofrimento dos outros), sussurrando sobre memorabilia nazista e assassinatos em série. A Anarquia Ontológica não coleciona filmes pedantes e entedia-se profundamente com elites que vomitam filosofia francesa. (``Não há esperança alguma e eu já sabia disso antes de você, seu merda. Há!'') Wilhelm Reich foi quase levado à loucura total e assassinado por agentes da Praga Emocional. Talvez metade de sua trabalho deveria da mais absoluta paranóia (conspirações de OVNIs, homofobia, até mesmo sua teoria sobre o orgasmo), MAS em um ponto nós concordamos completamente - sexpol: repressão sexual alimenta a obsessão pela morte, o que leva à más políticas. Uma grande parte da arte de vanguarda está saturada com Raios de Orgônio Mortal (ROM). A Anarquia Ontológica tem como objetivo construir detonadores de nuvens estéticas (armas-RO) para dispensar o miasma do sadomasoquismo cerebral que hoje em dia é considerado moderno, brilhante, inteligente, o máximo, o novo. Artistas ``performáticos'' automutiladores são para nós banais e estúpidos - sua arte deixa todo mundo mais infeliz. Que tipo de bosta barata conivente... que artistas babacas com cérebro de minhoca prepararam esse cozido apocalíptico? É claro que a vanguarda parece ``inteligente'' - como Marinetti e os Futuristas, como Pound e Celine. Em comparação com esse tipo de inteligência, preferimos a estupidez real, a idiotice insossa e bucólica do New Age - preferimos ser idiotas a ficar obcecados pela morte. Mas, felizmente, não precisamos esvaziar o cérebro para alcançar nosso tipo raro de satori. Todas as faculdades, todos os nossos sentidos são nossos, nossa propriedade - coração e cabeça, espírito e intelecto, alma e corpo. A nossa não é uma arte de mutilação, mas de excesso, superabundância, assombro. Os distribuidores da melancolia sem sentido são os Esquadrões da Morte da estética contemporânea - e nós os ``desaparecidos''. Seu salão de bailes de fantasia com ocultos bricabraques do Terceiro Reich e assassinatos de crianças atrai os manipuladores do Espetáculo - a morte fica melhor na TV do que na vida - e nós, artistas do Caos, que pregamos uma alegria rebelde, somos encurralados e mantidos no silêncio. Não é precisos dizer que rejeitamos toda a censura da Igreja e do Estado - mas, ``depois da revolução'', de bom grado assumiremos a responsabilidade individual e pessoal pela queima de todo o embolorado lixo artístico dos Esquadrões da Morte e pela sua expulsão da cidade em caravana. (No contexto anarquista, a crítica torna-se uma ação direta.) Em meu espaço não cabe em Jesus e seus senhores das moscas nem Charles Manson e seus admiradores literários. Eu não quero nenhuma polícia mundana - nem assassinos cósmicos e seus machados; nenhum massacre com serra elétrica na TV, nenhum sensível romance pós-estruturalista sobre necrofilia. No momento, a AAO nutre vaguíssimas esperanças de poder sabotar o mecanismo sufocante do Estado e seu circuito fantasmagórico - mas podemos chegar a ser capazes de fazer algo para diminuir as manifestações da praga dos ROM, como os comedores de cadáveres do Lower East Side e outros lixos artísticos. Apoiamos artistas que usam materiais aterradores para alguma ``causa nobre'' - que usam material sexual/afetivo de qualquer tipo, não importa se chocante ou ilegal - que usam sua raiva e asco e seus desejos verdadeiros de caminhar em direção à auto-realização, beleza e aventura. ``Niilismo Social'', sim - mas não o niilismo morto do autodesprezo gnóstico. Mesmo se for violento e abrasivo, qualquer um com um vestígio do terceiro olho consegue enxergar as diferenças entre a arte revolucionária pró-vida e a arte reacionária pró-morte. Os ROM fedem, e o nariz do artista do Caos pode senti-lo da mesma forma que discerne o perfume da alegria espiritual/sexual, mesmo quanto soterrado ou mascarado sob outros odores sombrios. Mesmo a Direita Radical, com todo seu horror da carne e dos sentidos, ocasionalmente aparece com um momento de percepção e aprimoramento da consciência - mas os Esquadrões da Morte, com todo seu cansativo discurso e suas abstrações revolucionárias modernas, oferecem-nos tanta energia libertária quanto o FBI, o FDA e os batistas recalcados. Vivemos numa sociedade que faz propaganda de suas mercadorias mais caras com imagens de morte e mutilação, enviada diretamente para a parte sub-reptícia do cérebro das multidões através de aparelhos carcinógenos geradores de ondas alfa que distorcem a realidade - enquanto algumas imagens da vida (como a nossa favorita, de uma criança se masturbando) são banidas e punidas com uma ferocidade incrível. Não é preciso coragem para ser um Sádico da Arte, pois a morte libidinosa está no centro estético do Paradigma do Consenso. ``Esquerdistas'' que gostam de se fantasiar e brincar de polícia e ladrão, pessoas que se masturbam olhando para fotos de atrocidades, pessoas que gostam de pensar e intelectualizar sobre a arte ``qualquer jeito'', a pretensiosa falta total de esperança, monstruosidade terrível, as desgraças dos outros - tais ``artistas'' não são nada além de policiais-sem-poder (uma definição perfeita também para muitos ``revolucionários'') Nós temos uma bomba negra para esses fascistas estéticos - ela explode em espuma e estalos, ervas hilariantes e pirataria, estranhas heresias xiitas e fontes paradisíacas borbulhantes, ritmos complexos, pulsações da vida, tudo o que for sem forma e raro. Acorde! Respire! Sinta o hálito do mundo em sua pele! Aproveite o dia! Respire! Respire! (Nossos agradecimentos a J. Mander por seu livro Four Arguments for the Abolition Of Television, a Adam Exit e ao mouro cosmopolita de Williamsburg.)

segunda-feira, 15 de junho de 2009


Estamos tão acostumados com a vida urbana que achamos que ela é normal. Mas não é. Ao contrário das formigas e das abelhas, os seres humanos geralmente vivem em grupos pequenos, familiares, bem isolados uns dos outros. E aí você pergunta: como assim? E as cidades? E as metrópoles ao redor do mundo, uma mais imensa que a outra, aquelas enormes manchas de eletricidade visíveis do espaço onde milhões de pessoas se amontoam umas nas outras? Ora bolas, as cidades. Cidades são exceções na história humana. Desde que o primeiro humano pisou a Terra num canto esquecido da África, 100 mil anos atrás, a enorme maioria dos Homo sapiens viveu na roça, no mato, no campo. A enorme maioria das pessoas que já existiram teve uma existência rural ou selvagem e viveu a vida produzindo sua comida, dormindo e acordando ao sabor da luz do sol, convivendo com apenas um punhado de pessoas, sempre as mesmas, a vida inteira. O ser humano é, como regra, uma espécie rural. Foi só nos últimos milênios que descobrimos o conforto de viver numa cidade. E, mesmo então, gente "da cidade", como eu e muito provavelmente você, sempre fomos uma exceção nesta nossa espécie rural. Sempre fomos minoria. Na verdade, ao longo de dezenas de milhares de anos, a população urbana nunca passou de um terço do total de pessoas. Em 1950, ela era de 30%. Mas, de lá para cá, ela não parou de aumentar. A ONU calcula que, depois de 100 mil anos de maioria rural, a população urbana chegou a 50% em maio de 2007. E agora, pela primeira vez desde o Big Bang, somos maioria. Há mais gente vivendo em cidades que no campo neste mundão. Mas isso não apaga o fato de que somos uma espécie mais dada à vida rural que à urbana. A evolução nos construiu para plantar, capinar, colher, caçar, fofocar, coçar o dedão. Não para googlar, dirigir e falar no celular - isso aí ainda estamos aprendendo. Nossa vida tecnológica e urbana é uma raridade na história da humanidade. Mesmo assim, é nas cidades que os lances mais emocionantes da história humana acontecem. É que cidades são lugares incríveis. Nelas, as coisas ficam perto umas das outras. As pessoas ficam perto umas das outras. Isso permite que tenhamos vidas riquíssimas, que seriam impossíveis num meio de mato. Podemos aprender com milhares de pessoas diferentes, circular entre culturas, trocar idéias. Podemos mudar de interesses um trilhão de vezes, em vez de passar décadas submetidos ao mesmo monótono calendário ditado pelas estações do ano, que determinam o plantio e a colheita. Tudo isso é fascinante. Mas não faz sentido viver numa cidade se não formos aproveitar o que ela tem de bom. Se formos nos trancar em nossas casas, e não andarmos nas ruas, não vamos encontrar os outros, aprender com eles. Se nos dispersarmos com a quantidade de informação, não vamos nos concentrar em nada, e o que a cidade tem de fantástico vira ruído. Se formos nos domesticar por um empreguinho e nos acomodarmos com o fato de que precisamos do salário, toda essa riqueza desaparece de nossas vidas. Se entupirmos as ruas com carros e lixo, com câmeras de segurança e muros, aí ninguém se encontra, ninguém troca. E a cidade não serve para nada.